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Ensino de geografia e formação critíca

  • Foto do escritor: Entre Águas e Riscos
    Entre Águas e Riscos
  • 25 de mai.
  • 2 min de leitura

No horizonte do Ensino Médio, a Geografia consolida o seu estatuto epistemológico como um campo analítico e metodológico indispensável para a desnaturalização das paisagens e para o exercício efetivo da cidadania ativa. Ao romper definitivamente com a herança da geografia tradicional e mnemônica — que se limitava à descrição fenomênica e à catalogação enciclopédica dos elementos da natureza —, a vertente da Geografia Crítica instrumentaliza o estudante para realizar o exame dialético das formas de ocupação e apropriação do espaço. Sob essa perspectiva analítica, o território deixa de ser considerado um palco inerte onde os eventos sucedem de forma aleatória e passa a ser compreendido como uma totalidade socialmente produzida e cindida por conflitos de interesse. Esse refinamento cognitivo é o que confere ao Ensino de Geografia no mundo atual uma relevância de ordem estratégica, uma vez que dota os educandos da escola pública de chaves conceituais estruturantes para decodificar as intencionalidades políticas e as assimetrias econômicas que modelam o espaço geográfico contemporâneo.

A Desnaturalização dos Desastres e a Produção Social da Vulnerabilidade, essa mudança de postura pedagógica revela-se urgente ao se transpor a temática dos riscos hidroclimatológicos para o cotidiano escolar. A abordagem crítica permite ao estudante compreender que os episódios de inundação e enchentes não constituem eventos puramente naturais ou fatalidades meteorológicas inexoráveis, mas configuram-se, essencialmente, como desastres socioambientais, ou seja, subprodutos diretos de dinâmicas territoriais historicamente assimétricas. Quando o planejamento urbano negligencia as leis físicas e empurra as populações de menor poder aquisitivo para as áreas de várzea e fundos de vale — como verificado historicamente na malha urbana de Pederneiras (SP) —, o espaço produzido passa a atuar como um vetor de segregação e risco. Portanto, ao analisar os impactos socioambientais por meio de conceitos como o de "vulnerabilidade social produzida", a geografia escolar destitui o caráter místico ou biocentrista dos desastres, evidenciando que a severidade de uma cheia está diretamente associada às escolhas políticas e ao modelo predatório de expansão imobiliária capitalista.

Percepção de Riscos e o Fortalecimento da Resiliência Comunitária na Escola, como preconizam Kobiyama et al. (2018), o fortalecimento da resiliência comunitária frente à iminência de eventos extremos encontra no ambiente escolar o seu principal polo de difusão e maturação. Uma educação geográfica que se pretenda emancipatória não deve se restringir ao diagnóstico passivo da degradação ambiental; ela deve capacitar o jovem a desenvolver o pensamento espacial focado na mitigação de riscos e na salvaguarda da vida. Ao aprender a mapear as vulnerabilidades, identificar os vetores de inundação e compreender os tempos de resposta da bacia hidrográfica local, o estudante do Ensino Médio transita da condição de espectador vulnerável para a de agente cogestor do território. Essa virada metodológica converte a ciência geográfica escolar em uma ferramenta de intervenção concreta, vinculando de forma indissociável o rigor da teoria hidrológica e climatológica à responsabilidade ética, social e política do cidadão frente às emergências ambientais do Antropoceno.


Fonte: KOBIYAMA, Masato; MENDONÇA, Magaly; MORETO, Davis Anderson; MARCELINO, Isabela, P. V. de Oliveira; MARCELINO, Emerson V.; GONÇALVES, Edson F.; BRAZETTI, Leticia Luiza Penteado; GOERL, Roberto Fabris; MOLLERI, Gustavo Souto Fontes; RUDORFF, Frederico de Moraes. Prevenção de desastres naturais: conceitos básicos. – 1. ed. - Curitiba: Organic Trading, 2006.

 
 
 

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