Desastres socioambientais: conceitos e classificações

A compreensão da vulnerabilidade socioambiental no interior paulista fundamenta-se na teoria da produção do espaço de Henri Lefebvre (2000), que define o espaço urbano não como um receptáculo passivo, mas como um produto social intrínseco à reprodução das relações capitalistas. Sob a influ
ência do capital imobiliário e do avanço agroindustrial, a malha urbana é fragmentada e mercantilizada, consolidando o que Ana Fani Alessandri Carlos (2007) conceitua como a reprodução do espaço urbano como condição para a reprodução do capital. Esse processo gera uma segregação socioespacial que compele as classes vulneráveis a ocuparem franjas periféricas e áreas desvalorizadas, como planícies de inundação e fundos de vale, convertendo o espaço produzido no lócus da distribuição desigual dos riscos. No cenário das cidades de médio e pequeno porte do interior de São Paulo, a transposição dessa lógica elucida a especificidade histórica de Pederneiras (SP). O município, historicamente estruturado pela expansão cafeeira, ferroviária, rodoviária e pela Hidrovia Tietê-Paraná, vivenciou uma urbanização acelerada que replicou a lógica metropolitana de ocupação predatória dos vales hidrográficos, impulsionada pela industrialização e pela extração mineral de basalto. O avanço do tecido urbano sobre a bacia do Ribeirão Pederneiras resultou em retificações de canais, impermeabilização de vertentes e supressão de matas ciliares naturalizadas pelo planejamento tecnocrático local. Essa reconfiguração artificial do relevo negligenciou o regime fluvial histórico e gerou uma anomalia espacial pela conversão de áreas de amortecimento hídrico em zonas residenciais e industriais, materializando a injustiça social e pavimentando o cenário para a catástrofe hidrológica de janeiro de 2016.
Para fundamentar o estudo da realidade socioambiental na escola pública, a pesquisa e o ensino de Geografia encontram no Sistema Clima Urbano (SCU), formulado por Carlos Augusto Figueiredo Monteiro (1976), um arcabouço metodológico de alto poder explicativo. A teoria postula a urbanização como um fator antrópico gerador de um clima próprio, o qual altera os canais de percepção do impacto ambiental por meio de três subsistemas, destacando-se o hidrometeórico, no qual a substituição da vegetação por superfícies construídas e asfaltadas reduz a infiltração do solo e converte chuvas intensas em fluxos torrenciais imediatos. A incorporação do SCU à Geografia Crítica capacita os estudantes a inter-relacionarem a climatologia dinâmica e a geomorfologia urbana, superando visões naturalistas ou fatalistas sobre desastres — como a tempestade de 2016 —, compreendendo-os como respostas biofísicas de sistemas hidrológicos sufocados por escolhas políticas de produção do espaço. Adicionalmente, amparando-se na Lei nº 12.608/2012 (Política Nacional de Proteção e Defesa Civil) e nas diretrizes internacionais da UNISDR (2009), conceitua-se o desastre não como uma fatalidade geográfica, mas como uma construção social resultante da interação entre uma ameaça e uma população em estado de vulnerabilidade, cujos danos superam a capacidade de resposta local e evidenciam um desenvolvimento que negligencia as dinâmicas do território.





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