A Virada Tecnológica na BNCC, Multiletramentos e a Subjetividade Discente

O presente trabalho analisa a transposição didática das geotecnologias para o Ensino Médio a partir do referencial teórico de Milton Santos (2006), buscando compreender de que maneira as Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) e o letramento
cartográfico digital podem contribuir para a construção de uma leitura crítica da tecnosfera contemporânea.
Em consonância com as competências de Cultura Digital e Pensamento Crítico previstas na Base Nacional Comum Curricular — BNCC (BRASIL, 2018), propõe-se a utilização pedagógica de plataformas científicas de monitoramento, como a Sala de Situação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID). O uso dessas ferramentas no ambiente escolar possibilita ultrapassar uma concepção meramente instrumental da tecnologia, contribuindo para problematizar a ideia de neutralidade da técnica.
Ao se apropriarem desses recursos, os estudantes da escola pública passam a desenvolver condições para interpretar dados, mapas, gráficos e informações territoriais de maneira crítica. Dessa forma, podem compreender as intencionalidades políticas, econômicas e corporativas presentes na produção do espaço urbano e da vulnerabilidade socioespacial, deslocando-se da posição de simples espectadores para a condição de sujeitos capazes de analisar ativamente o território em que vivem.
A proposta metodológica da pesquisa organiza-se a partir da relação dialética entre as categorias de tecnosfera e psicosfera, formuladas por Milton Santos. A tecnosfera corresponde à dimensão material, técnica e informacional do território, expressa, neste estudo, pelo acesso a dados quantitativos, gráficos de vazão, sistemas de monitoramento e demais informações produzidas por meios técnico-científicos.
A psicosfera, por sua vez, relaciona-se aos valores, percepções, crenças, sentimentos e formas de interpretar a realidade. Nesse sentido, a análise territorial não se limita aos dados objetivos, pois incorpora também as experiências e os significados atribuídos pelos sujeitos aos acontecimentos vividos.
É justamente na articulação entre essas duas dimensões que as narrativas multimodais assumem papel fundamental. Conforme discutido por Baraldi e Peron (2020), a utilização de diferentes linguagens pode ampliar as possibilidades de aprendizagem e de interpretação da realidade.
Assim, a combinação entre ferramentas digitais, memórias orais, registros audiovisuais e documentários relacionados à enchente ocorrida em 2016 no município de Pederneiras (SP) permite estabelecer uma aproximação entre a informação técnica e a experiência cotidiana da população.
Os gráficos, mapas e dados de monitoramento deixam, portanto, de ser apenas informações abstratas. Quando relacionados às memórias e experiências das pessoas atingidas, passam a adquirir significado social, ético e afetivo. O conhecimento técnico transforma-se, dessa forma, em um instrumento para compreender o território, fortalecer práticas de prevenção e ampliar a percepção sobre a importância da proteção da vida e da solidariedade entre os sujeitos que compartilham o mesmo espaço.
O estudo também discute a configuração do território a partir da relação entre verticalidades e horizontalidades. As verticalidades estão vinculadas às redes técnicas, econômicas e institucionais que operam em escalas mais amplas e que frequentemente organizam o território de acordo com interesses hegemônicos. Já as horizontalidades correspondem ao espaço vivido, às relações de proximidade, ao cotidiano e às formas de cooperação construídas localmente.
Nesse contexto, quando os estudantes aprendem a utilizar, com rigor científico, ferramentas de monitoramento e análise produzidas pelas próprias redes técnicas e institucionais, eles também passam a se apropriar desses instrumentos para interpretar criticamente sua realidade local.
Essa apropriação pode fortalecer as horizontalidades, uma vez que o conhecimento produzido passa a servir à compreensão dos problemas concretos enfrentados pela comunidade e à construção de estratégias locais de prevenção, participação e cooperação.
Desse modo, a integração entre precisão técnica, multiletramentos e subjetividade contribui para uma formação geográfica que ultrapassa o simples domínio das tecnologias digitais. O objetivo não é apenas ensinar o estudante a operar plataformas ou interpretar mapas, mas possibilitar que ele compreenda de forma crítica os processos responsáveis pela organização do território e pelas desigualdades presentes no espaço geográfico.
Conclui-se, portanto, que a articulação entre conhecimento técnico-científico e experiência humana constitui uma possibilidade de enfrentamento da racionalidade hegemônica característica do meio técnico-científico-informacional e daquilo que Milton Santos denomina globalização como perversidade.
Ao incorporar geotecnologias, narrativas locais e práticas de leitura crítica do território, a Geografia escolar pode assumir um papel estratégico na formação de sujeitos mais conscientes e participativos, fortalecendo processos de autoproteção, emancipação social, solidariedade territorial e justiça ambiental diante dos desafios contemporâneos do Antropoceno.





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